terça-feira, 4 de outubro de 2011

Moran é fera...gosto de suas ideias...

Aprendizagem significativa
Professor de Comunicação na USP (aposentado)
Entrevista ao Portal Escola Conectada da Fundação Ayrton Senna, publicada em 01/08/2008 
ESCOLA CONECTADA- O que a escola deve fazer para, formar o aluno em conhecimentos, habilidades, valores, atitudes, formas de pensar e atuar na sociedade através de uma aprendizagem que seja significativa? MORAN- A escola precisa re-aprender a ser uma organização efetivamente significativa, inovadora, empreendedora. A escola é previsível demais, burocrática demais, pouco estimulante para os bons professores e alunos. Não há receitas fáceis, nem medidas simples. Mas essa escola está envelhecida nos seus métodos, procedimentos, currículos. A maioria das escolas e universidades se distanciam velozmente da sociedade, das demandas atuais. Sobrevivem porque são os espaços obrigatórios e legitimados pelo Estado. A maior parte do tempo freqüentamos as aulas porque somos obrigados, não por escolha real, por interesse, por motivação, por aproveitamento. As escolas conservadoras e deficientes atrasam o desenvolvimento da sociedade, retardam as mudanças.
A escola precisa partir de onde o aluno está, das suas preocupações, necessidades, curiosidades e construir um currículo que dialogue continuamente com a vida, com o cotidiano. Uma escola centrada efetivamente no aluno e não no conteúdo, que desperte curiosidade, interesse. Precisa de bons gestores e educadores, bem remunerados e formados em conhecimentos teóricos, em novas metodologias, no uso das tecnologias de comunicação mais modernas. Educadores que organizem mais atividades significativas do que aulas expositivas, que sejam efetivamente mediadores mais do que informadores. É uma mudança cultural complicada, porque os cursos de formação de professores estão, em geral, distantes tanto das novas metodologias como das tecnologias.
A escola precisa cada vez mais incorporar o humano, a afetividade, a ética, mas também as tecnologias de pesquisa e comunicação em tempo real. Mesmo compreendendo as dificuldades brasileiras, a escola que hoje não tem acesso à Internet está deixando de oferecer oportunidades importantes na preparação do aluno para o seu futuro e o do país.

ESCOLA CONECTADA- Como favorecer a aprendizagem significativa no contexto escolar? MORAN- Partindo de situações concretas, de histórias, cases, vídeos, jogos, pesquisa, práticas e ir incorporando informações, reflexões, teoria a partir do concreto. Quanto menor é o aluno mais práticas precisam ser as situações para que ele as perceba como importantes para ele. Não podemos dar tudo pronto no processo de ensino e aprendizagem. Aprender exige envolver-se, pesquisar, ir atrás, produzir novas sínteses fruto de descobertas. O modelo de passar conteúdo e cobrar sua devolução é ridículo. Com tanta informação disponível, o importante para o educador é encontrar a ponte motivadora para que o aluno desperte e saia do estado passivo, de espectador. Aprender hoje é buscar, comparar, pesquisar, produzir, comunicar. Só a aprendizagem viva e motivadora ajuda a progredir. Hoje milhões de alunos passam de um ano para o outro sem pesquisar, sem gostar de ler, sem situações significativas vividas. Não guardam nada de interessante do que fizeram a maior parte do tempo. Há uma sensação de inutilidade em muitos conteúdos aprendidos só para livrar-se de tarefas obrigatórias. E isso chega até a universidade, tão atrasada ou mais ainda do que a educação básica.
É muito tênue o que fazemos em aula para facilitar a aceitação ou provocar a rejeição. É um conjunto de intenções, gestos, palavras, ações que são traduzidos pelos alunos como positivos ou negativos, que facilitam a interação, o desejo de participar de um processo grupal de aprendizagem, de uma aventura pedagógica (desejo de aprender) ou, pelo contrário, levantam barreiras, desconfianças, que desmobilizam.
O sucesso pedagógico depende também da capacidade de expressar competência intelectual, de mostrar que conhecemos de forma pessoal determinadas áreas do saber, que as relacionamos com os interesses dos alunos, que podemos aproximar a teoria da prática e a vivência da reflexão teórica.
A coerência entre o que o professor fala e o que faz, na vida é um fator importante para o sucesso pedagógico. Se um professor une a competência intelectual, a emocional e a ética causa um profundo impacto nos alunos. Estes estão muito atentos à pessoa do professor, não somente ao que fala. A pessoa fala mais que as palavras. A junção da fala competente com a pessoa coerente é poderosa didaticamente.
As técnicas de comunicação também são importantes para o sucesso do professor. Um professor que fala bem, que conta histórias interessantes, que tem feeling para sentir o estado de ânimo da classe, que se adapta às circunstâncias, que sabe jogar com as metáforas, o humor, que usa as tecnologias adequadamente, sem dúvida consegue bons resultados com os alunos. Os alunos gostam de um professor que os surpreenda , que traga novidades, que varie suas técnicas e métodos de organizar o processo de ensino-aprendizagem.

ESCOLA CONECTADA- Que tipo de aluno/cidadão a escola de hoje está formando com a aprendizagem desenvolvida nas nossas escolas?
MORAN- Estamos formando-na prática e em geral-alunos pouco competentes
intelectualmente, emocionalmente e eticamente.

Intelectualmente porque não desenvolvem o gosto pelo conhecimento, porque não vibram com os desafios, porque se sentem sufocados por mil obrigações incompreensíveis. A maioria não lê com prazer, não entende realmente textos mais complexos, não compara diferentes versões. Criamos pessoas acomodadas intelectualmente, que se contentam com o primeiro resultado de pesquisa no Google.

Emocionalmente o sistema é sufocante. Preocupa-se mais com a repetição do que com a criação, não enxerga a pessoa como um todo. Os alunos pouco se expressam, pouco produzem e pouco comunicam dos seus sentimentos, afetos; da sua vida. Se a preparação intelectual é falha, a emocional então é desastrosa. Quanto mais avançam os alunos em idade, menor é a preocupação da escola com o emocional, que é relegado à esfera pessoal.

A formação ética é também muito precária e difícil, porque precisa ser ensinada com o exemplo, numa sociedade onde todos os dias nos é mostrado que os bem sucedidos desprezam os valores éticos fundamentais.Ao preocupar-nos mais-e mal-com o intelectual, deixando de lado as outras dimensões formativas, estamos preparando alunos individualistas, consumistas, interessados na sobrevivência econômica, com pouca solidariedade e contato entre os diversos grupos sociais, principalmente as elites, que se encastelam em escolas próximas dos condomínios fechados, de costas para a grande maioria dos cidadãos. É um crime termos escolas (e não são poucas) que se organizam para reforçar a exclusão, que se fecham em guetos, mantendo os alunos distantes da realidade social.


ESCOLA CONECTADA- Que propostas você teria para reorganização do currículo que se encontra desconectado das experiências dos alunos, tornando-o significativo, relacionando-o às experiências e vivências pessoais dos alunos?
MORAN- O ideal é trabalhar com projetos significativos que integrem várias áreas de conhecimento, sem disciplinas estanques, sem horários de cinqüenta minutos para cada uma. Como isso é complicado, na prática, para a maioria das escolas, podemos articular melhor algumas grandes atividades ou projetos em cada semestre, que integrem algumas dimensões dos conteúdos de cada disciplina e preocupar-nos com que cada educador foque muito mais a vivência, a experiência, a reflexão a partir de situações lúdicas, de histórias, de contatos efetivos com as múltiplas realidades de hoje. Se os alunos não percebem que tudo está interligado e que cada tema, assunto se relaciona com o restante, o currículo continuará uma colcha de retalhos, um mosaico fragmentado e sem sentido. Se o currículo continuar organizado por disciplinas, é fundamental que cada uma seja estimulante, atraente e esteja articulada com as demais. O aluno tem que perceber essa ligação continuamente, o que não acontece atualmente. Fazendo menos tarefas e mais atividades integradoras significativas podemos contribuir para que haja uma maior integração curricular.

Olhando para os próximos anos, os currículos serão muito mais flexíveis e personalizados. Teremos, em geral, menos disciplinas obrigatórias e alguns eixos temáticos principais, sem um único modelo, imposto da mesma forma e simultaneamente para todos. Algumas áreas serão privilegiadas - como saber ler, interpretar, escrever, contar, raciocinar - e depois serão oferecidas alternativas diferentes de avançar na formação. Haverá atividades individuais e atividades colaborativas, em que os alunos pesquisem e desenvolvam projetos em grupo e aprendam através de interação, da participação e da produção conjunta. Os alunos terão mais liberdade para a escolha de atividades artísticas, cuja importância será muito maior do que hoje. Cada aluno irá construindo um percurso em grande parte comum, mas adaptado a si mesmo, personalizado, a partir de um diálogo permanente com seu professor-orientador e muitos alunos estudarão em casa, conectados e só participarão de alguns processos de avaliação externa para certificação.
A educação escolar será muito mais voltada para a prática, para a pesquisa, para projetos, para atividades integradas semi-presenciais. Dará menos ênfase ao conteúdo; será mais rápida (módulos mais curtos) não organizada em disciplinas e sim em grandes temas e questões, com abordagem cada vez mais interdisciplinar e complexa. Focará mais o desenvolvimento de projetos, de pesquisas, jogos, de aprender juntos e também individualmente.


ESCOLA CONECTADA- Uma aprendizagem significativa está relacionada à possibilidade dos alunos aprenderem por múltiplos caminhos de forma colaborativa, permitindo o desenvolvimento de competências e habilidades. Nesse contexto, como tornar a sala de aula um espaço de aprendizagem significativa?MORAN- Um dos momentos pessoais chave para eu entender as mudanças na educação aconteceu em um curso intensivo que dei em um colégio particular de Curitiba. Os professores do ensino médio criticavam como era difícil dar aula para adolescentes desmotivados, dispersivos, barulhentos, indisciplinados. Uma professora de português deu um depoimento diferente. Segundo ela, não tinha problemas maiores com esses mesmos alunos. E ela detalhou o seu método de trabalho.

1)"Eu gosto dos meus alunos e me preparo positivamente para as aulas". Gostar dos alunos, gostar deles como são, com as dificuldades que trazem, com o jeito que se vestem, falam e escrevem. Gostar deles: é óbvio, mas fundamental para obter sucesso pedagógico. Muitos professores parece que não apreciam os alunos, sentem-se distantes deles, só os criticam e se preparam para a aula como para uma guerra e, evidentemente, ela acontece.

2)"Procuro surpreendê-los sempre".
Crianças e jovens gostam de novidades, de sair da rotina. A professora dizia que os alunos aguardavam sempre por alguma surpresa. Às vezes era de caráter pedagógico: um vídeo diferente, uma nova dinâmica. Outras era simplesmente uma peça de vestuário, um chapéu, algo que tivesse relação com a aula. As aulas são diferentes umas das outras. Utiliza bastantes tecnologias de ilustração como vídeos, CDs, DVDs, pesquisa na Internet. Todo educador precisa surpreender e cativar seus alunos sempre.

3)"Faço os acordos possíveis para as atividades, pesquisas e forma de apresentação".
A professora procura negociar com os alunos os sub-temas de uma pesquisa, a forma de apresentá-los e de divulgá-los. Os alunos fazem suas propostas e chegam a um acordo com a professora. Uns preparam um vídeo, outros um CD, outros desenvolvem uma peça de teatro. Acontece sempre um grande evento no fim do semestre para ampliar a repercussão dos trabalhos. Os alunos se sentem valorizados, levados em consideração e correspondem participando com entusiasmo.
Na educação o mais importante não é utilizar grandes recursos, mas desenvolver atitudes de comunicação e afetivas favoráveis e algumas estratégias de negociação com os alunos, chegar a consensos sobre as atividades de pesquisa e a forma de apresentá-las para a classe. Por que, se isso parece tão simples, os colegas dessa professora se queixavam tanto dos mesmos alunos que com ela colaboravam?.

Hoje, o professor, em qualquer curso presencial, precisa aprender a gerenciar vários espaços e a integrá-los de forma aberta, equilibrada e inovadora, pois antes ele só se preocupava com o aluno em sala de aula. Agora, continua com os estudantes no laboratório (organizando pesquisas, produzindo novos materiais), na Internet (atividades a distância) e no acompanhamento das práticas, dos projetos, das experiências que ligam o aprendiz à realidade, à sua profissão (ponto entre a teoria e a prática)-e tudo isso fazendo parte da carga horária da sua disciplina, estando visível na grade curricular, flexibilizando o tempo de estada em aula e incrementando outros espaços e tempos de aprendizagem.

Educar com qualidade implica em organizar e gerenciar atividades didáticas em, pelo menos, quatro espaços.

1) Reorganização dos ambientes presenciais
A sala de aula como ambiente presencial tradicional precisa ser redefinida. É um espaço para algumas informações, para debate, para organização de projetos, para mostrar seus resultados.
As salas de aula podem tornar-se espaços de pesquisa, de desenvolvimento de projetos, de intercomunicação on-line, de publicação, com a vantagem de combinar o melhor do presencial e do virtual no mesmo espaço e ao mesmo tempo. Pesquisar de todas as formas, utilizando todas as mídias, todas as fontes, todas as maneiras de interação. Pesquisar às vezes todos juntos, outras em pequenos grupos, outras individualmente. Pesquisar na escola; outras, em diversos espaços e tempos. Combinar pesquisa presencial e virtual. Relacionar os resultados, compará-los, contextualizá-los, aprofundá-los, sintetizá-los.

2) Aprendizagem em ambientes digitais
Há três campos importantes para as atividades em ambientes digitais: o da pesquisa, o da comunicação e o da produção-divulgação. Pesquisa individual de temas, experiências, projetos, textos. Comunicação, realizando debates off e on-line sobre esses temas e experiências pesquisados. Produção, divulgando os resultados no formato multimídia, hipertextual,"linkada" e publicando os resultados para os colegas e, eventualmente, para a comunidade externa ao curso.
O professor precisa hoje adquirir a competência da gestão dos tempos a distância combinados com o presencial. O que vale a pena fazer pela Internet que ajuda a melhorar a aprendizagem, que mantém a motivação, que traz novas experiências para a classe, que enriquece o repertório do grupo.

Estes ambientes virtuais incorporam cada vez mais recursos de comunicação em tempo real e off line, de publicação de materiais impressos, vídeos, etc. Recursos de edição on-line: professores e alunos podem compartilhar idéias, modificar textos, comentá-los. Podem fazer discussões organizadas por tópicos (off line) e fazer discussões ao vivo, com som, imagem e texto. Os ambientes de aprendizagem se integram aos programas de gestão acadêmica e financeira. Com a mesma senha os alunos acessam seu histórico escolar, seus pagamentos, seus cursos. Tudo se integra cada vez mais; tudo fala com tudo e com todos.

3) Aprendizagem em ambientes experimentais, profissionais e culturais
A escola pode estender-se fisicamente até os limites da cidade e virtualmente até os limites do universo. A escola pode integrar os espaços significativos da cidade: museus, centros culturais, cinemas, teatros, parques, praças, ateliês, centros esportivos, centros comerciais, centros produtivos, entre outros. A escola pode trazer as manifestações culturais e artísticas próximas, fazendo dos alunos espectadores críticos e produtores de novos significados e produtos. Inserir atividades teóricas com as práticas, a ação com a reflexão. Trazer pessoas com diversas competências para a escola mostra novas possibilidades vocacionais para os alunos.
Os alunos precisam ser incentivados a desenvolver projetos concretos de conhecimento e mudança do bairro, da cidade e de ampliação do contato com projetos de outras escolas, de outras instituições dentro e fora do nosso país.
O laboratório pode ser um espaço importante de integração entre as atividades presenciais e as virtuais, entre o mundo concreto e o abstrato, entre a teoria e a prática.

Se os alunos fazem pontes entre o que aprendem intelectualmente e as situações reais, experimentais, profissionais ligadas aos seus estudos, a aprendizagem será mais significativa, viva, enriquecedora.

ESCOLA CONECTADA- Na sua opinião, que desafios são encontrados numa educação comprometida com a aprendizagem significativa? MORAN- Estamos caminhando para uma nova fase de convergência e integração das mídias: Tudo começa a integrar-se com tudo, a falar com tudo e com todos. Tudo pode ser divulgado em alguma mídia. Todos podem ser produtores e consumidores de informação. A digitalização traz a multiplicação de possibilidades de escolha, de interação. A mobilidade e a virtualização nos libertam dos espaços e tempos rígidos, previsíveis, determinados. O mundo físico se reproduz em plataformas digitais e todos os serviços começam a poder ser realizados física ou virtualmente. Há um diálogo crescente, muito novo e rico entre o mundo físico e o chamado mundo digital, com suas múltiplas atividades de pesquisa, lazer, de relacionamento e outros serviços e possibilidades de integração entre ambos, que impactam profundamente a educação escolar e as formas de ensinar e aprender a que estamos habituados.

As mudanças que estão acontecendo na sociedade, mediadas pelas tecnologias em rede, são de tal magnitude que implicam- a médio prazo - em reinventar a educação como um todo, em todos os níveis e de todas as formas
Escolas não conectadas são escolas incompletas (mesmo quando didaticamente avançadas). Alunos sem acesso contínuo às redes digitais estão excluídos de uma parte importante da aprendizagem atual: do acesso à informação variada e disponível on-line, da pesquisa rápida em bases de dados, bibliotecas digitais, portais educacionais; da participação em comunidades de interesse, nos debates e publicações on-line, em fim, da variada oferta de serviços digitais.
Quanto mais distante a escola se encontra das grandes cidades, mais dramática costuma ser a exclusão digital. Hoje não basta ter um laboratório na escola (quando existe) para acesso pontual à rede durante algumas aulas. Hoje todos os alunos, professores e comunidade escolar, precisam de acesso contínuo a todos estes serviços digitais para estarmos dentro da sociedade da informação e do conhecimento.
Outro desafio importante é atrair profissionais competentes para a educação. Profissionais (educadores, gestores) bem preparados, remunerados e atualizados são fundamentais para uma educação inovadora. Muitos estudantes que gostariam de lecionar desistem diante dos salários baixos e das condições atuais de trabalho. Os melhores alunos deveriam ser incentivados para serem professores. Não é o que acontece, atualmente.


ESCOLA CONECTADA- Que estratégias devem ser trabalhadas pelo professor para centrar sua ação educativa numa aprendizagem significativa? MORAN- Numa sociedade mais complexa, com mais informações disponíveis, o professor precisa ser muito mais criativo nas suas propostas, atividades, mediação. A melhor estratégia é a da auto-motivação. Professor motivado motiva os alunos. Professor que mostra entusiasmo pelo que fala, pelo conhecimento, contagia os alunos. Professor desanimado, desanima. Professor muito rico de vivências, leituras, práticas, recursos encontra estratégias diferentes de orientar alunos e turmas diferentes.

A comunicação aberta, acolhedora é fundamental para o sucesso pedagógico. O acolhimento afetivo é condição fundamental de aprendizagem significativa, integral. Aprendi muito com alguns educadores abertos, acolhedores, competentes e confiáveis e que me traziam mais desafios do que soluções; que me incentivavam a continuar buscando, mais do que trazer respostas prontas.

Alguns recursos são importantes; utilizar situações do cotidiano (filmes, histórias, poesia, arte....). Fazer a ponte com o que acontece no dia a dia, com situações marcantes na mídia. Se tratamos temas mais abstratos, encontrar sua aplicabilidade, sua utilidade hoje, não só no futuro. Hoje, com a Web 2.0, com tantos recursos gratuitos, como blogs, wikis (escrita pode colaborativa), com as câmeras digitais e a facilidade de publicar textos, vídeos e falas, o professor pode enriquecer as atividades negociadas com os alunos de forma muito mais diversificada e interessante. Ensinar e aprender hoje pode transformar-se em um estimulante e fantástico desafio, que nos realiza profissional e pessoalmente.

Muito interessante este trabalho...

PIAGET E A CONSTRUÇÃO DE CONCEITOS GEOMÉTRICOS[1]

Kênia Bomtempo de SOUZA[2]

RESUMO

Este artigo tem como principal preocupação e eixo norteador a pesquisa de Jean Piaget sobre a construção do pensamento com relação aos movimentos e a compreensão de espaço do ser humano. Este estudo procura dimensionar e direcionar, o conhecimento de estruturas genéticas e sensório-motoras até o estudo da geometria, fazendo uma relação entre os conceitos adquiridos pelo ser humano e aqueles construídos e estruturados com o nome de Geometria.

Palavras-chave: Piaget – Geometria - Aprendizagem



Introdução

Um dos objetivos do estudo da epistemologia genética é explicar o desenvolvimento humano e sua formação mental. O biólogo Jean Piaget elaborou o seu trabalho, para a compreensão da evolução da inteligência humana, baseado em pressupostos da Biologia, da lógica e  da epistemologia.

Piaget não realizou seus estudos considerando a educação propriamente dita, mas ao estudar sobre o desenvolvimento mental, bem como as estruturas lógicas da formação da inteligência e do conhecimento, ele observou estruturas operatórias relacionando-as ao estudo e compreensão da matemática.

Para Piaget, (1995) a criança constrói seu conhecimento por meio de uma experimentação ativa, ou seja, ela experiencia os objetos sem formar conceitos, pois estes só apareceram mais tarde. Sendo assim, Piaget (1995) defende dois tipos de experiência que interessam a este trabalho; a experiência física e a lógico-matemática.

Através da experiência física, a criança conhece os objetos com sua ação sobre ele, ela age sobre ele e o manipula, descobre as propriedades materiais que podem ser observadas através da visualização e do manuseio de tais objetos. Com um certo nível de abstração, a criança descobre as propriedades físicas de um objeto, entretanto, para solidificar esse conceito, precisa-se de uma estrutura organizada da inteligência. Logo, para que ocorra o aprendizado é necessária a “assimilação”, ou seja, a incorporação desse objeto às estruturas inteligentes da criança. Para isso, precisa acontecer a inter-relação entre as experiências físicas e as lógico-matemáticas.

Piaget (1995), caracteriza a abstração física como abstração simples e a abstração lógico-matemática como abstração reflexiva. Quando a criança consegue relacionar vários objetos entre si  através da abstração, isso quer dizer que ela passou da abstração simples, que é empírica,  observada através do toque, para uma abstração reflexiva, em que já consegue relacionar as propriedades do objeto diante de outros fatores.

Para estudar as estruturas cognitivas do desenvolvimento mental da criança, Piaget (1995) deparou-se com a construção do pensamento matemático e lógico da criança, e, ao analisar seu trabalho que descreve  a aprendizagem sensório motora, pode-se  extrair dele a compreensão geométrica da criança, através de seus movimentos iniciais até a fase adulta. E é diante deste pensamento que se propõe este trabalho.



Os estudos de Jean Piaget que envolvem o pensamento geométrico



Piaget (1995) formalizou três tipos de conhecimento; o físico, o social e o lógico-matemático; destacou o físico para operações concretas e o lógico-matemático para operações abstratas.

Para Piaget (1995), as estruturas lógico-matemáticas não são inatas, caracterizando a diferença entre adulto e criança. A criança apresenta mais lógica nas ações do que nas palavras. As ações, por sua vez, representam o início da construção das operações futuras da inteligência. Entretanto, essa diferença não acarreta males para o desenvolvimento; Piaget deixa claro que há grandes diferenças entre a lógica verbal e a lógica responsável pelas ações.  Entretanto, a lógica das ações aparece sempre mais profunda e primitiva, sendo desenvolvida com maior rapidez, superando melhor as dificuldades encontradas.

Assim sendo, a lógica da criança difere da do adulto, principalmente, devido à ausência da “descentralização”, ou seja, da “não – conservação”. Ao entender a construção do conhecimento, sempre em interação com o desenvolvimento, Piaget (1995) afirma as diferenças qualitativas entre a forma de pensar da criança e do adulto.

Flavell (1975) mostra a importância da observação do comportamento das crianças para Piaget (1995).  Menciona que ele se refere à sua técnica experimental como método clínico, priorizando a espontaneidade da criança em seus atos. Ao observar, pode acontecer a sistematização de tarefas experimentais a serem utilizadas posteriormente: “Piaget admite a utilidade dos procedimentos mais padronizados do tipo teste, para uma variedade de propósitos psicométricos” (Flavell, 1975, p. 29). Entretanto, para explicar a busca de estruturas intelectuais em diferentes níveis, não há como padronizar testes, logo o método clínico da observação e experimentação é o mais viável, já que o comportamento não é o mesmo para todos. Assim, são criadas oportunidades de vivenciar novas experiências, priorizando qualidade, rejeitando a mensuração, pois as diferenças individuais não seriam percebidas por meio de testes padronizados para a compreensão do desenvolvimento intelectual.

Ao não estabelecer o uso quantitativo e estatístico de dados e idades, Flavell escreve que isso nada tem a ver com ignorância por parte de Piaget, mas mostra o seu interesse em compreender e identificar estruturas cognitivas e o desenvolvimento intelectual, independente de números e quantidades. Tudo isso

significa que Piaget, a partir de poucas experiências superficiais e não sistemáticas com uma meia dúzia de crianças chega a conclusões apressadas e pouco ponderadas. Pelo contrário, a impressão que temos é de que ele se dedica seriamente ao teste das crianças, formula e verifica hipóteses, testa mais crianças, repensa e revê conceitos teóricos e assim por diante. ( Flavell, 1975, p. 31)

   

A teoria de Piaget (1995), possui três aspectos de fundamental importância: o Conteúdo, a Estrutura e Função. Para Flavell (1975), “um terceiro aspecto importante do sistema piagetiano é uma inclinação particular para o estudo da estrutura da inteligência em desenvolvimento, em contraposição à sua função e ao seu conteúdo” (1975, p. 17). O Conteúdo refere-se a dados comportamentais como a forma de pensar, o quê pensar e a forma  de agir de cada indivíduo. A função refere-se à adaptação mental que consiste em assimilar e acomodar um determinado conhecimento simultâneo. A função está intimamente ligada à inteligência, pois ela define sua condição e essência, independente da idade. Ela assimila e acomoda do novo ao velho e vice-versa, definindo o comportamento inteligente. A estrutura volta ao campo da biologia, explora o desenvolvimento da inteligência por meio através de fatores genéticos e hereditários. As estruturas “são as propriedades organizacionais da inteligência, organizações criadas através do funcionamento e inferíveis a partir de conteúdos comportamentais cuja natureza determinam” (Flavell, 1975, p. 17). A estrutura é colocada entre conteúdo e função, pois ela organiza as situações entre eles.  

Para explicar o desenvolvimento humano, Piaget (1995) divide sua teoria em cinco processos mentais. São eles: assimilação e acomodação, os quais quando elaborados simultaneamente, ocorrem a adaptação, a organização e a equilibração.

A assimilação é um fator que consiste ao sujeito, pois é o processo de compreensão de algo. Utiliza o conhecimento prévio que tem sobre o assunto. A acomodação é a superação, por esforço cognitivo próprio. Adaptar é assimilar e acomodar um determinado conhecimento simultâneo. A totalidade desse processo é a organização da estrutura mental. A equilibração cognitiva é o auto-regular do pensamento, ao utilizar, sobretudo, o pensamento reversível. A reversibilidade é um fator importante para a construção da inteligência, pois a idéia de pensamento móvel e dinâmico e a descoberta de transformações sobre os objetos mostram que os atos podem ser corrigidos e ou transformados, eles são de natureza mutáveis.

O desenvolvimento mental, para os psicogenéticos, ou seja, o crescimento e a adaptação intelectual são desenvolvidos através de processos de equilibração entre assimilação e acomodação providos nas relações a partir do sujeito e do objeto.

A assimilação surge para o entendimento do objeto, o sujeito de posse de suas estruturas mentais internas, age e apropria-se do objeto através de conhecimentos atribuindo-lhe um significado. A acomodação encarrega-se de ajustar a compreensão mental às condições impostas pelo objeto de conhecimento. Enquanto isso, a adaptação cumpre o papel de equilibrar os dois processos, sem que haja a sobreposição de um ao outro.

Assim sendo, o desenvolvimento da inteligência ocorre a partir de um estágio de equilíbrio, sendo necessário que ocorra o ‘ desequilíbrio’ entre sujeito e objeto para que no processo de equilibração, seja produzido o conhecimento da situação, explicando, assim, a construção das estruturas mentais, por meio do progressivo equilíbrio entre o assimilar e o acomodar. Para Flavell (1975), o equilíbrio entre assimilar e acomodar pode variar dentro de um mesmo estágio e de um estágio para outro. “Entretanto, não existe assimilação cognitiva; os atos inteligentes pressupõem ambas em alguma medida” ( p. 48).

A teoria de Piaget (1995), baseia-se também na divisão de três períodos de desenvolvimento do pensamento. São eles: o da inteligência sensório-motora ( 0 a 2 anos ), o da preparação e de organização das operações concretas ( 2 a 11 anos ) e operações formais ( 11 a 15 anos ). Sendo que o período de preparação e de organização das operações concretas possui dois estágios muito importantes: o estágio pré-operacional ( 2 a 7 anos ), e o estágio das operações concretas ( 7 a 11 anos). A palavra período designa as principais épocas do desenvolvimento, enquanto o termo estágio é uma subdivisão que ocorre dentro dos períodos, assim sendo, o período explica os principais desenvolvimentos, já que dentro de cada um há vários estágios.

Segundo Flavell (1975), para Piaget, “embora a seqüência seja considerada invariante, a idade em que aparece um dado estágio pode variar consideravelmente. Em outras palavras, a série de estágios forma uma escala de intervalos” ( p. 20). Sendo assim, não se pode confundir estágio de desenvolvimento com a idade, ao supor a faixa etária dos estágios, Piaget estaria apenas considerando a idade mais provável para aquele desenvolvimento. Piaget, também, reconhece que nem todas as pessoas se desenvolvem da mesma forma, mas elas podem chegar ao mesmo nível evolutivo. Entretanto, pode haver diferenças nas áreas de socialização ocorrendo a diferença de desenvolvimento, “Um indivíduo não é necessariamente capaz de funcionar num mesmo nível estrutural diante de todos os tipos de tarefa” ( Flavell, 1975, p. 20).

Desde seu nascimento, a criança está em contato com o mundo em que vive. Para mamar, o bebê necessita exercer movimentos com a boca; ao acostumar-se com este exercício, só mamar o seio não o satisfaz, começa então a encontrar os dedos, colocando-os na boca para sugá-los provocando movimentos diferentes. Esse é o início da coordenação motora, ou seja, da construção da inteligência através da assimilação mental.

Por meio dos sentidos como a visão, a audição, o tato e até mesmo de seus pequenos e iniciais movimentos, a criança vai explorar o ambiente que a cerca, interpretando-o, assim, antes mesmo de utilizar palavras. Conhece então o espaço e as formas nele presentes. A criança deve estar em contato sempre com situações, mesmo que de modo sensorial, com objetos variados de forma tridimensional, bidimensional, linear e unidimensional.

No período sensório-motor, a criança desenvolve progressivamente a noção de espaço. Utiliza e manuseia objetos; descobre fatos sobre o objeto, o tempo e o espaço ocupado por ele. Tudo isso, através das experiências de deslocamento do sujeito e do objeto.

Progressivamente, a criança vai conseguindo uma maior coordenação de suas atividades no espaço: pode  pegar um objeto que deixou cair, reiniciar uma atividade interrompida, antecipar o deslocamento de um objeto móvel oculto atrás de um biombo, diferenciar os objetos que estão ao seu alcance dos que não estão.       (Gálvez, 2001, p. 240).



O campo de visão da criança nessa fase ainda é muito reduzido. E  se apropria das imagens com os movimentos da cabeça e dos olhos, visualiza apenas o que alcança, o que está próximo. Aos poucos, esse  campo  de  visão  aumenta  de acordo com as relações de espaço do próprio  corpo,   pois “inicialmente, o sujeito não concebe os objetos como sendo dotados de trajetórias independentes de sua ação.” (Gálvez, 2001 p. 241). Ela pensa que os objetos e o eu estão localizados em um espaço comum.

Nesta fase, a criança deduz soluções para seus problemas antes de experimentá-los, a partir de suas representações iniciais e rudimentares do que é a realidade, ela combina internamente estas soluções. Após completar um ano, a criança começa a jogar objetos no chão para observar a forma como caem e a trajetória realizada por por eles. Sendo assim, ela está explorando e experienciando o espaço em que vive. “É assim que, em presença de  um novo objeto, ver-se-á o bebê incorporá-lo sucessivamente a cada um de seus esquemas de ação ( agitar, esfregar ou balançar o objeto), como se se tratasse de compreende-lo através do uso.”( Piaget, 1995, p. 20)

A inteligência sensório-motora está ligada à ação. As ações estão limitadas na realidade e não em sua representação; por isso, ocorre um desenvolvimento particular, a criança possui um comportamento pré-imitativo com o desenvolvimento do lúdico, porém, tem um crescimento privado, individual e  sozinha.

No final desse estágio, a criança sabe que o “eu” também é um objeto, inter- relaciona a apreensão do espaço em que está incluída, externalizando o objeto e o espaço. Dá-se o início da simbolização que é a compreensão de símbolos e linguagens. Aos poucos, a criança internaliza as ações percebendo seus movimentos e deslocamentos como sendo também um objeto no meio. A criança exterioriza a noção de espaço e ele em si, passando-o para um ambiente estático em que aparecem sujeito e objeto.

Nessa fase, a criança não consegue, ainda, por exemplo, ordenar mentalmente alguns objetos sem antes manipular e ordená-los concretamente. Por não conseguir entender o espaço representativo é que, nesta fase, a criança precisa vivenciar diversas situações ligadas à localização espacial, desenvolvidas através de esquemas corporais, sempre acompanhadas de verbalização, ou seja, tudo muito bem explicado com palavras, não só gestos.

Assim, a compreensão do espaço inicialmente é de forma perceptiva, em que a criança o constrói através do contato direto. Em seguida, a compreensão do espaço torna-se representativa, a criança consegue entender o objeto mesmo com sua ausência.

Por meio das atividades feitas por ela, a criança reconhece o espaço e as formas de acordo com o seu desenvolvimento motor. Percebe-se então um desenvolvimento mental afirmado pela noção do objeto, bem como de sua dimensão e distância no espaço.

 A evolução do espaço prático é inteiramente solidária com a construção dos objetos. No começo há tantos espaços, não coordenados entre si, quanto domínios sensoriais (espaço bucal, visual, tátil, etc.) e cada um deles está centralizado sobre movimentos e atividades próprias.( Piaget, 1995, p.21)

 Segundo Flavell (1975) a evolução da noção de espaço é paralela à aquisição da noção de objeto: “no final do desenvolvimento sensório-motor, no entanto, a criança apreende um espaço único e objetivo no qual todos os objetos, inclusive ela própria, estão incluídos e inter-relacionados” ( p.136). Logo, o desenvolvimento das noções de espaço e objeto é objetivado e externalizado progressivamente. Esta fase está relacionada à visualização da Teoria de Van Hiele para o pensamento Geométrico, pois a imagem aparece sem a conceituação dos objetos. Para a criança, a noção geral dos objetos é construída a partir da visualização, levando em consideração a fase de desenvolvimento da inteligência.

Segundo Gálvez, “Piaget insiste na natureza operatória da intuição geométrica, que permite superar o estatismo próprio das imagens” (2001, p. 243). Piaget considera o espaço físico diferente do espaço lógico-matemático; o primeiro ele considera como sendo “abstraído dos objetos”, e o segundo, a partir das ações efetuadas sobre o objeto.

O período de preparação e de organização das operações concretas funciona mesmo como uma preparação rudimentar das primeiras simbolizações, que só aparecem no final do período sensório-motor, para se concretizar com o início do pensamento formal.

A coordenação lógica do espaço, através de operações “ transitivas e reversíveis”, só é observada na fase das operações concretas, sendo que, ao final desta,  atinge-se, também, o nível das operações formais, conforme Piaget (1995).

No estágio Pré-operacional, a linguagem provoca mudanças na afetividade e no intelecto da criança. A linguagem passa a ter uma finalidade para as ações da criança, espera-se alcançar objetivos. Através da aquisição de uma inteligência representativa, a criança não só registra empiricamente sucesso ou fracasso, mas reflete sobre a organização de seus atos ao aplicá-los aos objetos. Ocorre a socialização advinda dos símbolos, significados e significantes, pois, ocorreu a plena aquisição da linguagem, tudo isso, contribui com uma formação egocêntrica nessa fase. Há uma incapacidade de acomodar-se ao novo, mas, de maneira coerente e racional assimila-o ao velho.

Ao compreender a possibilidade de substituir uma ação ou objeto por uma imagem ou palavra, aprece a compreensão de símbolos.  Isso, a partir dos dois anos de idade. Inicia-se, então, a função simbólica que constitui na criança a noção de espaço representativo. O espaço representativo se caracteriza como sendo a fase em que a criança interioriza as ações executadas, entretanto, não consegue representá-las sem executá-las de fato.

Apenas ao final de vinte e quatro meses, ou seja, dois anos é que a criança entende e caracteriza os objetos em sua totalidade, inclusive a de seu corpo. A aquisição de coordenação de movimentos mostra a elaboração do espaço desenvolvida pela inteligência senso-motora.

O pensamento, nessa fase, é extremamente concreto e real, pois a compreensão da reversão dos fatos torna-se clara. Entretanto, há o desequilíbrio entre a assimilação e a acomodação dos fatos. Ocorre, também, a compreensão das relações de tamanho, comprimento que possibilita a visualização do espaço e dos objetos.

No final do estágio pré-operacional, após os sete anos de idade, o que era antes chamado de “as operações do pensamento”, passa a corresponder à intuição. Piaget (1995) lembra e explica a origem da palavra operação, relacionada a lógica e/ou a relações, colocando a lógica como o conceito ou classes e as relações como as aritméticas, geométricas, temporais, mecânicas e físicas. Há uma construção do raciocínio matemático através desta fase de desenvolvimento.

É de grande interesse constatar que, embora as operações de seriação (coordenação das relações assimétricas) sejam descobertas assim, por volta dos sete anos, em relação aos comprimentos ou tamanhos, dependentes da quantidade de matéria, é preciso esperar os nove anos, em média, para se obter uma seriação análoga dos pesos (de tamanhos iguais: por exemplo, bolas do mesmo tamanho, mas com pesos diferentes), e onze ou doze anos para se obter a dos volumes (pela medida da imersão na água), conforme Piaget (1995, p. 50).

O estágio das operações concretas é caracterizado pela socialização da criança, ocorrida no final do estágio anterior. Com o entendimento da reversão, a possibilidade de reverter os erros, descentraliza o pensamento de um único ponto de vista. A criança percebe melhor a diferença entre suas ações.

Esse estágio é caracterizado pela abordagem das estruturas lógico-matemáticas para explicar a modelagem das estruturas cognitivas do pensamento. A abordagem lógica e a empírica com a abstração mostram o aparecimento do entendimento de operações matemáticas como: soma, subtração, multiplicação e divisão bem como os sistemas de classes, as relações de quantidade, mensuração, tempo e espaço.

Tudo isso mostra as ligações significativas entre os agrupamentos lógicos e as relações interpessoais; o estudo da lógica contribui para a compreensão da identidade da criança neste período.

Após os 11 ou 12 anos, o pensamento formal torna-se possível, isto é, as operações lógicas começam a ser transpostas do plano da manipulação para as idéias. ( Piaget, 1995, p. 59).

Isso explica a passagem do pensamento concreto para o pensamento formal. Na matemática, inicia-se a compreensão da linguagem matemática, bem como a manipulação de seus símbolos.

As operações formais ocorrem basicamente na adolescência, ocorre a adaptação à sociedade, surge o pensamento elaborado, a formação da personalidade, o pensamento e as  idéias são hipotético-dedutivos. Aparece a necessidade de ser aceito socialmente. O adolescente é onipotente quanto às suas idéias e seus pensamentos.

O pensamento formal é, portanto, ‘hipotético-dedutivo’, isto é, capaz de deduzir as conclusões de puras hipóteses e não somente através de uma observação real. Suas conclusões são válidas, mesmo independentemente da realidade de fato, sendo por isto que esta forma de pensamento envolve uma dificuldade e um trabalho mental muito maiores que o pensamento concreto ( Piaget, 1995, p. 59).

A principal característica dessa fase é a distinção entre o real e o possível. Diante de um problema, o adolescente procura imaginar todas as relações possíveis para resolvê-lo, escolhe procedimentos, analisa logicamente e experimenta. Tudo isso mostra um pensamento elaborado, científico, e não só empírico. As conquistas do desenvolvimento acontecem do geral para o específico, enquanto a criança percebe “o aqui” e “o agora”, o adolescente visa generalizações para um futuro remoto. A percepção e a análise detalhada dos fatos são a modalidade de adaptação constituída nesse estágio.

Para que a criança construa a noção de espaço, é necessária uma longa caminhada, realizada através de etapas. Desde os primeiros meses de vida, a criança começa a localizar objetos usando como referência seu próprio corpo. Ela estabelece relações entre si e os objetos; em seguida a esse processo ocorre a descentração, ou seja, a criança passa do egocentrismo à uma noção de espaço em que ela não é o centro para a localização.

Assim, o espaço para a criança é apenas um espaço de ação, a partir do qual ela constrói suas primeiras noções de sentidos como grande, pequeno, dentro e fora, usando seus próprios movimentos. A criança age, então, de maneira descentrada, apoiando-se na coordenação de ações.

Como as construções próprias dependem das ações, logo, elas são partes essenciais para o processo evolutivo. Os conceitos geométricos são ensinados, tradicionalmente, de maneira euclidiana: projetiva e topológica. Para Piaget, porém, a ordem lógica em que a geometria é construída no pensamento inicia-se com conceitos topológicos, depois vêm os projetivos e os euclidianos.

O estudo do espaço é de ordem topológica, então, a compreensão do espaço se dá desde o início na vida da criança, mesmo que de forma experimental, com os objetivos no meio. Mais tarde, ao invés de ações organizadas no espaço, surgem as ações interiorizadas e convertidas em sistemas operacionais.

A criança percebe o espaço topológico através das idéias de localização, direção, dentro, fora, ao lado e com a idéia de vizinhança. A compreensão e construção de um conceito de medidas, por exemplo, é um processo longo e demorado. Inicia-se com a construção de medidas espontâneas, com a conservação de distância e comprimento para só mais tarde surgir a necessidade de um sistema de coordenadas. Esse processo ocorre entre nove e dez anos, quando a criança coordena as medidas de duas ou três dimensões, utilizando referências naturais como vertical e horizontal.

Apesar de não se importar com medidas até os nove anos de idade, a criança, antes disso, vive envolvida com medidas: faz comparações entre as alturas de si mesma e a dos colegas e caracteriza o processo de construção do conceito de medida, partindo de algo muito informal. Logo, a partir da compreensão da idéia de distância, surgem, então, as relações euclidianas.

 Após esse período, a criança transfere os conhecimentos topológicos para os euclidianos, passa do espaço para o plano. Para isso, é necessária também a compreensão de uma geometria projetiva; a noção de projeção surge entre cinco e seis anos, com a idéia de antes, depois, primeiro, segundo, ao lado e último. Nesta fase, adquirem-se os conceitos através da noção dos objetos no espaço, projeta-se o espaço no plano, visualiza-se a idéia do objeto, usando. Então usa então, a geometria plana euclidiana para a representação plana de objetos com visualização espacial. 

Assim sendo, a compreensão de uma geometria planificada e projetada só aparecem mais tarde com um raciocínio mais elaborado e com a idéia adulta das representações manipuladas, pois ela não pode surgir por meio de leituras imediatas feitas apenas através dos objetos e do meio. 



 Conclusão

Para Jean Piaget, o desenvolvimento é então um processo contínuo, gradual e possível graças à equilibração cognitiva. Para que se construa o conhecimento, é necessária, a interação entre o sujeito e o  objeto, não se pode pular etapas ou estágios diante do modo de pensar construtivista, pois em cada contexto há uma transformação. O desenvolvimento cognitivo não é imposto pela maturação ou pela perspectiva do meio, logo, ele é o resultado da interação do sujeito e objeto. O que permite a passagem de um estágio de inteligência para outro, é a ação de adaptação do sujeito ao meio. Isso desde os primeiros anos de vida, mostrando a constante busca de um equilíbrio melhor. Para Piaget, o crescimento intelectual e a constante busca de estágios superiores formam a equilibração progressiva ou marjorante.

Dentro do processo de crescimento intelectual estão as atividades sensório-motoras. Logo, o desenvolvimento e o equilíbrio motor estão intimamente ligados à construção de espaço, que é feita e elaborada desde os primeiros meses de vida do ser humano. Ao observar os estudos de Piaget, pode-se perceber  a ligação entre descobrir o mundo com pequenos movimentos e a formação de uma inteligência geométrica, mesmo que de forma superficial inicialmente. Entretanto, com o desenvolvimento dos gestos, do tato e da visualização, o ser humano completa uma seqüência lógica de compreensão do espaço e dentro dele está a geometria, a peça chave para os estudos das formas, dos movimentos e da natureza em si. 

Nessa visão o sujeito procura adaptar-se à realidade em que vive, provendo seu desenvolvimento mental e intelectual através de seus estágios evolutivos. Assim o sujeito organiza e transforma a realidade sem jamais copiá-la, atua sobre a realidade e sobre o objeto, desenvolvendo o processo de construção mental do conhecimento.  Tudo isso, graças as estruturas genéticas que o ser traz consigo ao nascer e ao desenvolvimento mental que constrói a inteligência ao longo dos anos até a fase adulta. Nessa fase,  pode se organizar e estruturar os conhecimentos de forma geométrica, nesse caso, é  possivel conhecer a forma como são adquiridos, manipulados e estudados  diante de estudos longos, aprimorados e contextualizados.

Pode se dizer que a compreensão de mundo, como espaço físico, se dá de forma experimental e geometricamente observável, diante de mecanismos próprios da natureza do ser humano.   

ABSTRACT



SOUZA, Kênia Bomtempo de. Piaget and the construction of geometric concepts. Temporis[ação], Goiás, v. 1, nº 9, Jan/Dez 2007.



The main concern and direction of this paper, is Jean Piaget’s research about the thought construction in what it regards the movements and the understanding of the human being’s space. This study seeks to take dimensions of the knowledge of genetic and motor-sensorial structures towards the reach of geometry study. A relationship among the acquired concepts by the human being and those concepts which were built and structured on the basis of the name of geometry will be made.

Keywords: Piaget – Geometry - Learning



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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[1] Este estudo foi feito como parte integrante da monografia de conclusão de especialização em educação matemática pela Universidade Federal de Goiás.
[2] Mestranda em Educação Matemática pela UFG e professora de Matemática da Universidade Estadual de Goiás - Cidade de Goiás.

Construção da noção de Espaço segundo Piaget, trabalho muito bom...

http://www.seer.ufu.br/index.php/sociedadenatureza/article/viewFile/9205/5667


Otrabalho está bem acessível e ao mesmo tempo profundo.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Gestão e currículo

"O currículo é um meio de atribuição de sentido às diversas atividades realizadas no interior da escola: tomadas isoladamente, estas atividades poderiam parecer aleatórias, mas vistas na relação com o todo, com a intencionalidade educativa, ganham significação". (VASCONCELLOS, 2002)

VASCONCELLOS, C. S. Coordenação do trabalho pedagógico. São Paulo: Libertad, 2002.
A partir da citação acima, faça uma reflexão de como o currículo pode ser significativo no espaço escolar e qual é o papel da gestão frente à temática. Acrescente um exemplo prático para justificar sua resposta. (Máximo: 15 linhas).

Se Gestão Democrática é uma forma de gerir uma instituição de maneira que possibilite a participação, transparência e a democracia, podemos então dizer que o currículo ali concebido deve ser: uma abordagem de tudo que diz respeito à ação educativa; um privilegiar a questão dos conteúdos; a forma de organizar estes conteúdos; um espaço que regula e promove as capacidades dos alunos; um meio de se produzir identidade; a exporessão e a produção da educação; o meio de criação de uma proposta curricular que: todos possam aprender; respeite as diferenças superando os fracassos; prepare e adeque a instituição para receber os alunos.

E neste tipo de instituição, o pedagogo, ocupa o papel de: o que tem o domínio sistemático e intencional dos métodos de ensino; articulador do trabalho coletivo; mediador do trabalho pedagógico; dar suporte ao trabalho docente; mediador da concepção posta no Projeto Político-Pedagógico e na Proposta Pedagógica Curricular, garantindo a sua intencionalidade no Plano de Trabalho Docente.


Um exemplo deste tipo de atuação seria a instituição em que existem previsões de atividades que extrapolem os conteúdos formais como; feiras de conhecimento; feiras de ciências e tecnologias; manifestações artísticas e de lazer, nas quais há disponibilização da instituição para a comunidade escolar como um todo.

Regina do Rocio Motta

Ensino de geografia... Roberto Filozzolla

http://www.diaadia.pr.gov.br/tvpendrive/modules/debaser/singlefile.php?id=506